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Reflexões sobre a estrutura e a subjetividade

Durante minha vida acadêmica, sempre tive em mente (especialmente pelas influências marxistas sobre minhas pesquisas) que há uma relação entre o modo de produção social e histórico e a formação da subjetividade humana.


A discussão que existe quando trabalhamos a partir dessa perspectiva envolve compreender duas principais afirmações:

A- O modo de produção determina a formação da subjetividade

B - A subjetividade é multideterminada


Essas duas formulações nos ajudam a ir mais além do estruturalismo de Althusser, que pensava a sociedade a partir da metáfora do edifício



Nessa metáfora, a infraestrutura (a base) determinaria a superestrutura. Autores como Jessop (2021) e Thompson (1978) apresentam uma forma de pensar que, para mim, faz mais sentido. Especialmente se o objetivo é investigar sobre a subjetividade humana.


Para esses autores, a visão estruturalista de Althusser (1980) se constituiria em um reducionismo porque a experiência humana é muito mais diversa.


Em outras palavras:


Por mais que o Estado seja um aparelho de dominação de classe, ele jamais será capaz de exercê-la completamente. A experiência humana é muito mais rica do que aquilo que é delimitado pelo modo de produção, podendo ser, inclusive (e é nisso que aposto), mais subversiva.


Nesse sentido, Jessop e Thompson propõem pensar a formação social como uma totalidade, isto é, uma rede complexa de contradições que compõem o tecido social.


Acredito que a psicanálise lacaniana contribui nesse sentido, ao pensar o inconsciente como linguagem. Justamente porque podemos brincar com a linguagem, subvertê-la e formar sentidos singulares. Ademais, Lacan também avança ao estruturar a psicanálise a partir de uma perspectiva ontológica negativa: somos furados. Há sempre algo que escapa na linguagem. Se, por um lado, isso significa que a angústia existencial é inevitável, por outro também destaca o potencial criativo para dar conta desse buraco. Também acredito ser fundamental acrescentar a ética do sujeito para a psicanálise lacaniana, a dizer, a ética do desejo! O desejo é aquilo que há de mais subversivo, porque é irredutível e incontrolável.


Esse vídeo é um ótimo exemplo disso (ative as legendas)

A subjetividade humana deveria ser pensada, nesse enquadre, como parte de uma estrutura social, econômica e política, mas também como aquilo que escapa dessa estrutura.


Também poderíamos reformular da seguinte maneira:


Somos seres de nosso tempo, mas as possibilidades de criação dentro dessa determinação é infinita.


Ou, ao menos, é no que acredito como projeto político para a subjetivdade humana. Somos capazes de sonhar com uma vida com mais dignidade e com algo melhor, que talvez precise ser (re)inventado.


Outro dia li uma frase de um psicanalista, mas perdi a referência. Creio, no entanto, que ela faz jus ao que escrevi aqui:


"A esperança é apenas um outro nome para o desejo"


Interessante ter começado esse texto falando sobre a estrutura social e política e terminar falando sobre o potencial subjetivo para a transformação para mais além desse modo de produção que nos adoece.


Há uma esperança que ainda mora em mim.


Novidade do mês

Esse mês, lancei no site meu projeto de assessoria acadêmica, já deu uma conferida? Os assinantes da newsletter têm desconto, tá?


Projetos em andamento

Enfiei na cabeça que quero atualizar o texto do Martin-Baró "O papel do psicólogo" (https://www.scielo.br/j/epsic/a/T997nnKHfd3FwVQnWYYGdqj/abstract/?lang=pt), mas com minhas próprias reflexões a partir dos fundamentos teóricos que tenho ampliado.


Recomendo...

Quero muito recomendar o filme "Women Talking", que vi no Mubi. É um filme genial sobre mulheres de uma seita que começam a deliberar sobre o que fazer com casos recentes de violência sexual. Acredito que converse muito sobre nosso papo de hoje.


Boa semana para todos vocês, seres pensantes


Referências


Althusser, L. (1980). Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado. Martins Fontes.

Jessop, B. (2021). El Estado. Pasado, Presente y Futuro. (2o ed). Catarata.

Thompson, E. P. (1978). Folklore, Anthropology and Social History. Indian Historical Review, 3(2), 247–266.


 
 
 

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